Memórias do Futuro.

19 de setembro de 2018

A cada quatro anos o povo escolhe deputados e por onze vezes fui eleito em meu Estado, motivo de grande orgulho.

Olho para trás e me pergunto se fiz a diferença. Creio que sim, sem falsa modéstia. Agora, me lanço à disputa ao Senado.

Somos um colegiado de 513 deputados e a voz de muitos deles fez a diferença, não é exclusividade minha.

Percebi que a impunidade não impunha limites aos ladrões públicos e outros tipos de criminosos. Criei a colaboração premiada, detestada pelos corruptos que a apelidaram de delação, para desqualificá-la. Delatores não são bem vistos. O apelido acabou pegando entre os de boa fé.

Da experiência acumulada pude perceber as manobras para anistiar o uso de caixa dois em campanhas eleitorais. As Sessões se sucediam sem deliberação, mas os trabalhos não eram encerrados. Isso me chamou a atenção e redobrei a vigilância.

Não foi em vão. Esperava-se o momento certo para, na calada da noite, aprovar um projeto fantasma concedendo anistia criminal aos políticos que usaram em campanha dinheiro ilegal. Até a programação da TV Câmara foi desviada do Plenário. Reclamei e a transmissão foi retomada.

Inicialmente voz solitária, contrária a tal decisão, aos poucos ganhei adeptos que me permitiram impedir tal votação. Tudo acabou gravado pela TV , que voltou a transmitir a Sessão a tempo de documentá-la. E pasmem. O Presidente da Sessão, Deputado Beto Mansur, disse ao microfone que só concordara em submeter o projeto à votação porque havia acordo dos líderes de todos os partidos para aprova-lo.

No Supremo Tribunal Federal derrubei a Lei de Imprensa da ditadura e, com ela, a censura.

Uso essa introdução como incentivo aos que se habilitam pela primeira vez a uma cadeira de Deputado. Sobre meus trabalhos, teria muito mais a dizer.

Desconfiem de plenário vazio e não se desestimulem. Permaneçam próximos a um microfone, para intervir ao primeiro sinal de manobras escusas.

Agucem a atenção quando ouvirem do presidente da Sessão que há sobre a Mesa matéria extra pauta. Normalmente é um jabuti, apelido que vem do dito popular “jabuti não sobe em árvore. Se está lá, foi enchente ou mão de gente”. Matérias extra pauta normalmente são jabutis. Se chegam à súbita votação, alguém as colocou clandestinamente por lá.

Não avaliem seus colegas pelo número de mandatos. Há velhos deputados que jamais se corromperam e outros que já lá chegam procurando o caminho do enriquecimento ilícito, assim demonstram as investigações da Polícia Federal.

E lembrem-se. Deus há de lhes permitir que não morram precocemente. Tratem de envelhecer sem envergonhar o povo que os elegeu. E envelheçam na luta política.

Todos os trabalhos humanos são dignificantes. Ser um honesto parlamentar faz parte desse elenco.

Sejam sempre, como deputados, os mais humildes servidores do povo e o povo saberá reconduzi-los, distinguindo-os dos que profanam a Política.

Com dedicação ao Mandato, do resto o tempo lhes será o melhor conselheiro.