3 de setembro de 2018


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Lágrimas de Papel.

 

Se fossem verdadeiras, as lágrimas escritas pelas autoridades em lamentos propagandísticos teriam apagado o incêndio do Museu da Quinta da Boa Vista.

Só que as lágrimas não foram derramadas e se o fossem, também seria fora de hora. Além do mais, papel não apaga incêndio. Lágrimas sinceras afloravam de populares, antropólogos, museólogos, professores e outros intelectuais de vários matizes, que previam o desastre há muito tempo.

Governos desprezaram a História, a cultura e as sementes do saber que lá estavam dispostas a ajudar no conhecimento para construção do futuro.

A Quinta da Boa Vista é um belo parque de reuniões tradicionais de famílias de trabalhadores em fins de semana, cenário que se altera ao escurecer, no lado externo das grades de proteção, com a farta oferta de craque e o ajuntamento de viciados e prostitutas pobres.

Verifica-se agora que a grade não mudava o descaso oficial com o recanto e sua maior preciosidade, na paisagem bucólica adornada por um lago.

Memórias de infância não se perderão, mesmo quando pouco se compreendia do relevo do que estava abrigado no prédio incinerado.

Erro grosseiro de quem tem o dever de zelar pelo bem público é conduta punível. Funcionários do Museu apregoaram os alertas contra a precariedade da manutenção e os riscos do fogo letal, que acabou ocorrendo.

O sentimento sincero está nas lágrimas de tantos do povo, sensíveis à extensão do dano.

Chora-se pelo conteúdo, o acervo de livros e objetos de arte. Chora-se pelo pedaço da história da Humanidade lambido pelas chamas.
Prédios e palácios podem ser reconstruídos ou restaurados. Séculos de História viva, não.

Resta o luto, na imagem que rola na Internet.