Democracia, Fome e Crime.

10 de setembro de 2018

Para setenta por cento da população, que ganham menos de três salários mínimos, Democracia é comida na mesa, por mais surpreendente que possa parecer a conclusão assim resumida por professores, sociólogos e outros especialistas dedicados a estudar o pensamento político de nossa Nação.

A quem surpreende tal conclusão?

Humildemente lhes digo que não a mim.

Jamais usei histórias de minha origem muito pobre para emocionar eleitores e acho descaramento políticos o fazerem, a carregar nas tintas de sofrimentos ultrapassados.

Minha infância foi muito pobre e muito feliz, com os brinquedos que improvisava e as peladas jogadas descalço em ruas calçadas com paralelepípedos entre os quais se alojavam pequenos cacos de vidro a nos ferir os pés.

No suicídio de Getúlio Vargas, fui apanhado por minha falecida mãe na Escola Carmelitana Santo Alberto, na Lapa, e percorremos a passos muito largos, corridos mesmo, o caminho para casa na Rua Acre, imediações da Praça Mauá.

Os grupos que manifestavam revolta contra a morte do líder pareciam-me multidões, na ampliação dos olhos infantis assustados com o quebra-quebra que faziam em lojas que mantinham suas portas abertas.

A primeira notícia a circular é que haviam matado Getúlio, o “Pai dos Pobres” e a comoção se generalizou, com ou sem resposta violenta.

Seriam os protestos contrários ao desfecho da crise política de então ou pela preocupação do futuro dos trabalhadores manifestantes? As lágrimas vertidas pelos que enfrentavam filas para olhar pela última vez o corpo exposto em velório eram de despedida do protetor. Choravam por ele e pela incerteza do próprio futuro, arrisco-me eu ao olhar para trás. Democracia ou ditadura não eram palavras encontradas entre os lamentos.

Passados os anos, os breves momentos de pleno emprego do “milagre econômico” do golpe de 64 eram comemorados em músicas de encomenda que cantavam “eu te amo meu Brasil, meu coração é verde, amarelo, branco, e azul anil” ou “esse mar é meu, leva o seu barco pra lá desse mar”, quando da fixação em 200 milhas do mar territorial. “Vai ter peixe e camarão, lagosta que só Deus dá”.

A tortura comia solta, com a imprensa censurada, sem o conhecimento até da classe média.

Brutalidades eram ocultadas pela propaganda oficial nas TVs recentemente coloridas. Só havia boas notícias e, claro, falsas, incompletas.

Restabelecida a Democracia, faltam respostas aos que temem a criminalidade, a falta de serviços médicos, de habitação, escola e, a persistir, a falta de comida na mesa.

Ultrapassado o choque do atentado contra Bolsonaro, essas são respostas devidas pelos candidatos à próxima eleição. Falar em tese sobre desenvolvimento é tarefa facilitada pelos poucos minutos dos debates.

Ninguém explica como se vai fazer para que o Brasil continue o “País do Futuro”, sempre do futuro.

Sem perder de vista a preparação para os tempos que virão é urgente demonstrar como o fantasma do desemprego e da insegurança serão exorcizados.

Desenvolvimento voltado para a criação do emprego botará comida na mesa das famílias. Reduzida a violência, as demais mazelas serão resolvidas na sequência, a médio e longo prazo. A Democracia estará assegurada.

A falha da campanha eleitoral é o silêncio sobre a devolução da esperança àqueles a quem só tem sobrado sofrimentos. Se não for suprido, em breve a Democracia parecerá inútil e tombará para terreno de grave risco.