Capitalismo Moreno.

15 de setembro de 2018

Daqui a dez dias completam-se dez anos da crise financeira norte-americana que abalou economias mundiais. A rigor, a crise não tem dia determinado, porque foi um período de especulação financeira no mercado imobiliário. A data de 25 de setembro marca os protestos do povo em Wall Street, rua em que se concentram as sedes de grandes e variados tipos de bancos. Por lá, é o centro nervoso ou o coração do aparelho circulatório do dinheiro.

Com juros em patamar inferior à inflação, era fácil comprar duas ou três casas financiadas em 30 anos, alugá-las, pagar as prestações dos empréstimos e, por fim, acumular um bom dinheiro no fim do mês.

Como a felicidade não é eterna, um dia os juros subiram, as prestações dos empréstimos não foram pagas e os bancos retomaram as casas que acabaram vendidas a preços baixos, depois de muito tempo, porque os impostos e a manutenção de tantos imóveis eram insuportáveis. Era mais negócio livrarem-se deles.

A crise contaminou outros setores da economia e ultrapassou as fronteiras norte-americanas porque houve uma perda de confiança no sistema financeiro.

O governo americano entrou com centenas de bilhões de dólares no socorro aos bancos quebrados, em negociações que já inspiraram livros e filmes.

A tudo assistindo, o povo protestou ocupando praças e, especialmente, Wall Street, onde um touro, em enorme estátua de bronze, simboliza a força do dinheiro.

“Ocupem Wall Street” era o nome do movimento popular de desempregados e intelectuais que denunciavam a velocidade governamental para socorrer bancos, enquanto os desvalidos eram ignorados na própria miséria.

Com o dinheiro público, colocado pelo governo, saíram da crise e lentamente a América se recuperou.

Por outras motivações o sistema financeiro brasileiro viveu crise semelhante e menos grave ainda no governo de Fernando Henrique, e bancos foram salvos pelo PROER, um fundo financeiro privado para superar situações de emergências bancárias. Dizia-se, assim, que não era dinheiro público, mas era, porque os juros eram subsidiados e na hora do balanço do Banco Central, a diferença para os juros reais de mercado era coberta com dinheiro do Tesouro, ou seja, do povo.

Nos dois casos, lá e cá, persiste a contradição.

Enquanto a população reclama por mais verbas para saúde, educação, segurança e saneamento, para socorrer as bilionárias aflições dos magnatas o dinheiro corre rápido.

Nas discussões de campanha eleitoral, candidatos liberais fogem do debate sobre o papel do Estado.

E digo eu: quem se lança a empreender negócios conta com iniciativa, talento e recursos próprios ou de sócios, que o digam os pequenos, médios e até alguns grandes empresários.

Entre os espertalhões, persiste a cultura de tomar o dinheiro público para construir sua fábrica de lucros, enquanto o desemprego aumenta na mesma proporção do dinheiro que embolsam.

O povo sabe muito bem que não encontra programas de governo para aceleração de seus micro-negócios e vai à luta, sempre na esperança de melhorá-los.

Brizola falava do “socialismo moreno”, para definir um modelo brasileiro aproximado das visões social democratas.

Os trabalhadores avulsos já praticam o “capitalismo moreno” e querem crescer. Quem tem uma banca no camelódromo quer comprar outra e depois abrir uma pequena loja.

O lucro vem da competição e oferta de melhores produtos e preços na comparação com os do vizinho.

Nosso País está emperrado pelas normas ultrapassadas de tempos em que o mundo se dividia ideologicamente.

Hoje está visto que a redução do desemprego e a aceleração do crescimento precisam do reconhecimento da importância da livre iniciativa.

O Estado não ajuda. Pelo menos, que não atrapalhe.