Campanha Virou Desenho Animado.

16 de setembro de 2018

Os horários eleitorais no rádio e Tv foram criados na ditadura e usados pela primeira vez nas eleições parlamentares de 1966, época do bipartidarismo – ARENA e MDB-, quando Presidente e Governadores eram impostos pelos comandos militares de então.

Apesar de a maioria arenista ser esmagadora, o tempo era igual para os dois partidos, na lógica simples de afirmar que eleições deviam definir o futuro e os resultados passados não podiam ser levados em conta na oferta de oportunidade aos postulantes do voto popular.

Vivíamos um simulacro de democracia, é verdade, para que se afirmasse ao mundo que no Brasil havia eleições. Alguns críticos chamavam-na de democracia relativa. O saudoso Hélio de Almeida, ex-ministro do deposto Presidente João Goulart, ironizava: -“ Democracia é como gravidez. Não pode ser relativa”.

Dos quartéis, jovens oficiais já começavam a colaborar com a oposição, com análises e informações que, de tão certeiras, ajudavam a planejar as campanhas e levaram a população a lhe conceder esmagadora vitória em 1974, quando o MDB elegeu 16 Senadores, dos 22 assentos em disputa. A ditadura começava a cair.

A reação veio em 1976, quando o horário eleitoral passou a permitir apenas a exibição de fotos, nomes e currículos dos candidatos, mas não havia mais jeito. A recuperação democrática estava em curso desde 1975.

O resumidíssimo resumo que faço é para demonstrar como em tempos democráticos volta-se ao passado e se manipula a distribuição de tais horários, para evitar grandes mudanças no quadro do Poder.

As eleições servem para definir o futuro, mas a fixação do tempo de propaganda se baseia nos resultados de eleições passadas.

Tempo igual para todos representaria a paridade de armas, desfavorável aos responsáveis pelas infelicidades impostas ao povo pelos desmandos governamentais.

Há candidatos que não têm como preencher os enormes espaços com a pregação de ideias e transformam os horários de Tv em verdadeiros desenhos animados, com as vozes bem colocadas de locutores a descrever o que mostra a tela, repleta de traçados de novos meios de transporte ligando as cidades ou crianças felizes com a boa qualidade de merenda escolar.

A politização da campanha cedeu lugar à excitação do imaginário, como se as animações já pudessem ser usadas no dia de amanhã.

Parece a descrição de outro planeta, distante das dificuldades óbvias de quem se assusta com tiroteios diários, conduções superlotadas e falta de atendimento de saúde nas áreas periféricas.

Tudo parece resolvido nas expressões felizes de atores anônimos, a representar o povo satisfeito com as promessas das telas coloridas.

A manipulação do pensamento na história da Humanidade piorou com as novas tecnologias que pareciam ter vindo para evitá-la.

No interesse público ficam as sabatinas e debates realizados pela imprensa livre.
Chegou a hora de acabar com a aplicação de dinheiro público em campanhas eleitorais.

O tal horário gratuito nada tem de gratuito, porque as redes de rádio e Tv descontam dos impostos a pagar o valor do tempo utilizado e o Fundo Eleitoral também sai do seu bolso, diretamente do Orçamento do País.

Partidos e campanhas devem ser financiados pelos filiados e apoiadores das ideias que representam.

É bom lembrar que quem anula o voto também está pagando a conta.