Policial Morto Vira Estatística.

28 de agosto de 2018

Ainda cursava o ensino médio quando fui trabalhar como repórter auxiliar no jornal A NOITE, potência informativa de outras épocas que construiu o primeiro prédio de concreto armado que ainda se ergue na Praça Mauá, no Centro do Rio de Janeiro, de onde saiu Irineu Marinho para fundar O GLOBO.
Era o ano de 1962. Eu ainda não completara 17 anos e acompanhava experimentados repórteres na cobertura de acontecimentos do dia. Circulávamos de ônibus. Já na decadência, com a sede na Cinelândia, o jornal não possuía carros para deslocamentos da reportagem.
Sem carros e sem imaginar que haveria no futuro telefones celulares, os roteiros eram traçados para trazer o maior número possível de notícias até às oito da noite, quando a redação era ocupada pelos redatores na preparação da edição do dia seguinte.

As redações da época eram ruidosas com o matraquear das máquinas mecânicas de escrever, os palavrões nada poupados, os gritos do chefe de reportagem e as bolas de papel arremessadas contra quem estivesse mais compenetrado.

As histórias são inúmeras, mas fico por aqui para me deter no momento em que havia a consternação geral. A informação de um policial executado era lamentada e a perseguição ao assassino, no singular ou no plural, começava a ter a cobertura planejada, porque, sem dúvida, o crime não ficaria impune.

Tempos diferentes em que o policial dava voz de prisão ao bandido que imediatamente se rendia e caminhava para o carro-patrulha. Não havia camburões à época,

Agora percebemos que a barreira do respeito se rompeu.
Policiais são assassinados e passam a integrar uma estatística fria, tão grave quanto o assassinato, Desapareceu o horror contra a ousadia do desacato maior à presença da autoridade. A execução de policiais é premiada em dinheiro pelos chefões do crime e o alarme nas letras de forma parece contido pelo afã de não afetar a economia.

As famílias são mostradas brevemente em expressões de desespero e depois esquecidas, como esquecidos são os nomes dos assassinados. Viram números de uma guerra distante que está entre nós.

A ousadia ultrapassou todos os limites e chegou às forças de intervenção na segurança. Não há mais diferença na cor das fardas ou nos trajes civis, nivelados todos às crianças, mulheres e homens mortos ou feridos diariamente em um assalto ou tiroteio entre gangues.

A corrupção de políticos liberou geral para o crime.

Os serviços de inteligência das corporações precisam dedicar-se a desbaratar a lavagem do dinheiro, para combater o mal pela raiz, enquanto nas ruas a ordem volta a ser restabelecida.

Sem pisar no tubo de oxigênio da alimentação financeira do crime, desde a corrupção política, o Brasil e o Estado do Rio de Janeiro continuarão tomados pelo crescimento da bandidagem.