A Voz do Homem na Cidade de Deus

12 de agosto de 2014

Noite dessas, depois de passar na quadra da Escola de Samba Coroados de Jacarepaguá, dei uma breve caminhada pela vizinhança, na própria Cidade de Deus, mais precisamente na área do Gabinal e Santa Margarida.

Conversava sobre política, para variar, e assim cheguei à área das lojinhas, entre sorrisos e abraços.

De repente, de uma voz que pelo tom fazia questão de parecer pouco amistosa e de ser ouvida a muitos metros, saiu o seguinte:
- Deixa ele chegar aqui porque é com ele mesmo que eu quero falar.

Entendi que era comigo, não quis decepcionar o dono da voz e fui cumprimentá-lo. Para meu espanto ele correspondeu ao cumprimento e me estendeu a mão.

Confesso que tive certa sensação de alívio, porque se trata de um senhor razoavelmente forte e corretamente revoltado com os escândalos políticos, que não vê mais solução possível na Democracia e que prega o fechamento do Congresso, do que consegui demovê-lo.

A seu lado, o companheiro que com ele dividia a cerveja, interveio com uma proposta que dá o que pensar.
- Está na hora de interromper essa história de direita e esquerda. Tem que juntar as pessoas de bem e botar para fora da Câmara os ladrões públicos. Depois vocês voltam a brigar.
Dá mesmo o que pensar.

Olho para as páginas políticas e vejo contas secretas, propinas, suborno, caixa dois, malas de dinheiro, doleiros oficiais, o que dá nojo, revolta e descrença. Os fatos se repetem, mas não param de causar espanto.

As práticas são mesmo abomináveis e seus autores têm que ir para a cadeia.

Ocorre que a publicação dos escândalos é positiva.

As ditaduras são assassinas e corruptas, e ninguém ou pouca gente sabe do que se passa.

A Democracia nos traz a vantagem de conhecer os fatos em tempo real e separar os personagens que desqualificam a atividade pública.

O povo acompanha os acontecimentos políticos mais do que se imagina, diferente de tempos passados quando a atenção era restrita ao processo eleitoral.

Agora, as pessoas fiscalizam o comportamento dos políticos, seus posicionamentos e votos no Congresso e as maracutaias em que se metem.

O problema é que muitos acabam por atribuir os crimes à Democracia, cuja reputação fica manchada, quando ela mesma é uma vítima de agentes públicos.

Do que se passou, o que extraio para meu uso?

1 – Com a chance de debater, as pessoas topam dedicar alguns momentos à Política. Caso contrário, pura e simplesmente virariam as costas.

2 – O desencanto – e aí acrescento eu, a revolta – são com a cara de pau dos políticos apanhados com a mão na massa roubando o povo, conscientes da impunidade.

3 – As propostas de soluções que surgem revelam que existe a esperança e o desejo de limpar a vida pública.

Sou otimista e acredito que a redução da impunidade e da corrupção está perto de ser alcançada.

Chegamos a um extremo que ultrapassou o limite do suportável. E a solução está em mais liberdade, mais Democracia e mais participação.